Você sabe o que é Transgênero?

Eu ia evitar ao máximo falar desse assunto, por motivos óbvios. Apesar de ter um forte cunho científico, há também um óbvio cunho social, com todo conceito já pré-fabricado em torno. Não precisa nem dizer o melê que isso pode dar.

Como muita gente veio me perguntar sobre isso, resolvi escrever. Mentira. Na verdade ninguém perguntou nada, como sempre. Eu que me segurava sempre, mas aí pensei o que Han Solo faria nessa situação. "Que se dane" foi a única resposta que me veio.

Mesmo assim já aviso logo. Se você aquela coisa de "bons costumes" e "proteção da família tradicional brasileira", nem leia. Pule para o post seguinte e pronto. Nem perca seu tempo.

Também já digo que vou me ater ao máximo aos aspectos científicos da questão. E nem adianta provocar, nem vou ler comentários que fujam do cerne científico do assunto.

Avisados. Então vamos lá.

Em todo lugar se fala sobre a identidade de gênero. Se antes já bombava nas redes sociais, depois que saiu na novela então, trends topics.

Identidade de gênero é como a pessoa se enxerga. Pode ser cisgênero, quando a pessoa se enxerga igual ao sexo de nascimento, ou transgênero, quando é do sexo oposto. Há ainda a agênero, quando a pessoa não se identifica com nada.

Há uma enormidade de outras variações, mas que não são consideradas ainda como identidade de gênero, cientificamente falando. Muitos são devidos a traumas e alterações psicológicas da pessoa que ainda não conseguiu se identificar ainda com um gênero, então nem vou me ater a essas.

Na novela, havia uma personagem que havia nascido como menina, mas via seu corpo como menino. Era o que chamamos de transgênero masculino.

O mais importante é entender que a identidade de gênero é algo que está intrinsecamente definida no cérebro da pessoa. As pessoas classificadas como transgênero é como se o cérebro de um menino fosse colocado dentro de um corpo de menina, e vice-versa.

Para deixar as coisas ainda mais loucas, a identidade de gênero não tem nada a ver com preferência sexual. A área que dá a identificação de gênero é diferente da área da que dá a preferência sexual. E por serem áreas separadas, não possuem a relação que a sociedade pensa que há. Assim, um homem pode ter nascido no corpo de uma mulher e mesmo assim ter preferência sexual por uma mulher.

Voltando à novela, a personagem trangênera é um menino em um corpo de menina, que gosta de meninos. Ou seja, é caracterizado cientificamente como um transgênero masculino homossexual.

Complicado né? Mas a ciência é assim, não se pode escolher o que é simples ou complicado, trabalhoso e penoso de se entender ou não. As coisas são como são. Quer trocar pelo Big Bang ou pelo entrelaçamento quântico? Então pare de reclamar.

Mas se já entender que a identidade de gênero vem como uma alteração cognitiva estrutural do cérebro, e que não pode ser mudada, já ajuda muito. A pessoa não "vira" transgênero. Nem mesmo por causa de abusos sexuais na infância, pai ausente ou porque viu o cachorro ser atropelado na porta de casa.

Repito mais uma vez. É importante entender que a identidade de gênero não é modificável e que o problema vem exatamente quanto se tenta modificá-la.

De um lado, temos os defensores da "tradicional família brasileira", que não aceitam que existam meninos que não sejam machos e meninas não sejam prendadas e dedicadas ao lar.

Por outro lado, temos alguns radiciais que criaram uma nova denominação chamada "ideologia de gênero", que seria uma distorção da definição correta de "identidade de gênero". Esses são aqueles que evitam colocar qualquer coisa que tenha referência a gênero nas crianças. Escolhem nomes neutros, usam saia um dia e macacão no outro, evitam usar cores como rosa e azul e ninguém pode ver as crianças nuas para não saber o gênero real da criança.

Os dois grupos, apesar de contrariamente opostos, caem no mesmo erro: acreditar que a identidade de gênero pode ser modificada. E repito, não há evidência científica nenhuma que comprove que é, foi ou será possível modificar a identidade de gênero de qualquer pessoa, seja ele cisgênero, seja ele transgênero.

Há alguns anos, uma pesquisadora de identidade de gênero americana ficou famosa porque tentou fazer uma experiência com os próprios filhos. Deu para filha apenas brinquedos de meninos, e para o filho, brinquedos de meninas. Um dia ficou chocada ao perceber a filha colocando o MacQueen para dormir, enquanto o filho voava com a Barbie pela casa, jogando raio laser em monstros alienígenas.

Há alguns dias, Luciana Genro - sempre ela - postou uma foto do sobrinho, que ganhou um carrinho de boneca no aniversário para mostrar que ela não acreditava em gênero. Deu um forte aperto no coração ver a cara de tristeza da criança. Só ela que não percebeu.

Qualquer pai sabe do que estou falando. Seu filho ou filha quando entra em uma sala cheia de brinquedos, já vai direto nos seus preferidos. Meu filho, por exemplo, sempre foi fascinado em carrinhos. Mas nunca ligou para Lego, ou para bonecos, o que constatei com uma grande tristeza quando ele pouco se lixou para minha coleção de mais de 100 bonecos do Star Wars. Até hoje.

É tão errado o pai que proíbe o filho homem de brincar de boneca "por ser coisa de menina", quanto o pai que não deixa a criança brincar de carrinho por ser uma "coisa que predispõe ao gênero masculino".

A criança tem que brincar com o que ela quiser, se comportar da forma que lhe seja mais natural, vestir o que desejar. Se ela vir a se mostrar como cisgênero no futuro, ótimo, a sociedade está pronta para recebê-la de braços abertos. Se vier como trans, ok, vamos trabalhar a sociedade para aceita-la como ela merece, com o mínimo de traumas possível.

Por que amar seu filho da forma que você deseja que ele seja é mole. Difícil é amá-lo como ele realmente é.


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